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Sentinelas da Luz escancara declínio criativo de League of Legends

Por Moisés Martins 13/08/2021 • 13:01
Evento ficou marcado como a primeira interação multiplataforma entre os jogos da Riot Games
Evento ficou marcado como a primeira interação multiplataforma entre os jogos da Riot Games
Divulgação/Riot Games

Se no aspecto financeiro e esportivo os números sobem consideravelmente, a parte criativa por trás de League of Legends passa por decisões errôneas dentro de seu universo. Após aproximadamente dez anos de apresentação às narrativas de Runeterra, a expectativa dos fãs clamava por alguma interação significativa com os acontecimentos históricos como visto no evento Maré Ardentes, onde foi decidido o destino de Águas de Sentina e dos campeões Gangplank e Miss Fortune, além de outros velhos conhecidos como Twisted Fate e Graves. Fomos condecorados com o evento Florescer Espiritual em 2020 com boas skins e uma bela narrativa (mesmo que não completamente canônica), além de modos de jogo e animações que tiravam o fôlego dos adeptos e, ainda no mesmo ano, foi confirmado que a névoa sombria das Ilhas das Sombras seria o novo evento universal e que modificaria as histórias dos personagens.

Narrativas rasas e descaracterização de personagens
Ainda em meados de 2013, quando a região de Ilhas das Sombras começou a ser mais explorada, a expectativa com a chegada de campeões como Thresh, Lucian e o rework de Karthus aumentava o mistério sobre a, até então, região mais sombria já descrita nos contos de Runeterra, afetando todos com quem já tiveram contato e tornando-os mais sombrios e sempre sendo identificado como um local com poderes místicos sobre a morte e vida com menções a almas, zumbis e qualquer outro tipo de aspecto maligno. Com a chegada de “Sentinelas da Luz” e seu principal antagonista e líder da região, Viego, a expectativa subiu exponencialmente no aguardo de uma história com teor sombrio e sem brechas para muitos momentos felizes.

Mas o que vimos foi uma narrativa supérflua, com a inserção de um personagem para o jogador com absolutamente nenhuma relevância nas decisões tomadas pelos protagonistas e que estabelece diálogos com um humor excessivamente desgastante em todos os momentos. Como se não bastasse, o Recruta (nome genérico dado ao personagem “controlável”) parece não possuir qualquer senso de responsabilidade ou até mesmo não ter noção dos acontecimentos do universo. Esta última característica ainda se estende aos personagens principais como Senna e Lucian, que sempre se apresentaram como um casal consumido pelo medo e fúria mas que ainda assim reproduzem piadas completamente fora de momento e que tiram o foco e tensão do momento. A cereja do bolo, ou tampa do caixão, é a total quebra de personalidade de Vayne, uma jovem que perdeu seus pais ainda criança quando presenciou um demônio matá-los a sangue frio, gerando um sentimento de vingança que a motivou a caçar essas entidades por toda sua vida. Agora, Vayne entrou para a legião dos sentinelas e aparentemente se livrou de todo o rancor guardado durante uma vida, mesmo com o mundo inteiro sendo infestado por espectros similares àqueles que caçou por toda a vida. A mudança abrupta de personalidade se aplica também a Pyke e a Rengar, não possuindo qualquer tipo de nexo a inserção de ambos no esquadrão de salvamento do mundo. O primeiro, um espectro demoníaco de vingança, aparentemente decidiu se abster de seus objetivos que o mantém vivo para se juntar a pessoas do mesmo feitio o qual ele odeia e o segundo, um caçador que busca a proteção de sua floresta natal e a predação de grandiosos oponentes, aventurou-se em busca de um adversário desconhecido e sem qualquer valor aparente à ele. 

Financeiro sobrepõe à criatividade dentro do evento
A junção destes personagens ao evento deve-se ao fator mercadológico que agregam à desenvolvedora, com uma popularidade alta e consequentemente um retorno financeiro positivo mesmo que signifique o sacrifício de peças importantes da “lore” do game. Personagens como Poppy, Sylas, Azir, Jhin e os Kindred poderiam ter uma importância maior para a história de Runeterra dentro do evento mas não possuem uma base de fãs grande o suficiente para comprar as skins que seriam lançadas. Os sentinelas também não foram os únicos afetados pela prioridade monetária da Riot, o próprio Viego foi o maior exemplo disto por muito tempo, com uma aparência jovem e porte físico “padrão” mesmo com mais de mil anos de vida e corrompido por trevas, similar ao que acontece na skin Thresh Liberto, que dá uma aparência humana à um dos maiores monstros do jogo e oferece ainda um inexplicável aspecto físico mesmo com seu peito coberto por uma armadura. 

Importante também notar que o último campeão masculino e com aspecto humano lançado com o tórax coberto foi Aphelios, em dezembro de 2019, e de lá pra cá vimos uma crescente no número de skins e campeões lançados com tendências a sexualização dos mesmos para a atração de um público mais jovem. Esta prática, por mais maligna que seja, já é algo recorrente dentro da Riot Games e que já passou de sua data de validade, sendo reprovada em todos os cantos do mundo, mas ainda perdura dentro das decisões criativas na desenvolvedora, como explicado acima em Sentinelas da Luz. 

Conflito de histórias sobre o mesmo evento
Se no Florescer Espiritual tivemos uma boa narrativa dentro do jogo com a chamada visual novel (histórias interativas dentro do próprio client do game), em 2021 a Riot Games decidiu utilizar a mesma receita porém com ingredientes diferentes e intragáveis já que, como dito anteriormente, as histórias são rasas e repletas de um humor cansativo que desvia a atenção do tema principal.

Em contramão, uma minissérie de quadrinhos também foi lançada a respeito do evento e com uma outra perspectiva, já mais séria e focada, mas sem qualquer divulgação massiva por parte da desenvolvedora, ficando mais para a sólida e frustrada base de fãs que esperavam um aprofundamento maior na narrativa.

Ainda assim, uma outra “linha do tempo” foi criada a partir das animações lançadas e que também contam uma diferente versão da história. Aqui a Riot jogou seguro e esperava colher frutos de um grande histórico de CGI e outras produções que mesclam narrativas animadas, porém sem qualquer atenção dada às outras versões da história e ainda com uma qualidade inferior àquelas já conhecidas há muito tempo. Diversas explicações podem ser aplicadas à situação, porém nada explica a necessidade e empenho em desenvolver três versões diferentes dos fatos de um mesmo universo e que, nesta altura do campeonato, está sólido e compartilhado com outros dois games.

Por fim, o futuro
Ainda não sabemos o que nos aguarda dentro do universo de League of Legends, nem como a narrativa seguirá daqui em diante. Sabe-se que há eventos com uma magnitude maior do que a das Ilhas das Sombras, como a chegada do Vazio e o retorno dos Observadores, mas com a chegada do “efeito Marvel” (grupo de heróis que salvam o mundo do apocalipse recheado por humor desnecessário) as expectativas de uma boa narrativa caem consideravelmente a ponto de se tornar uma incógnita. Esperávamos uma grande guerra travada em Runeterra e fomos recebidos com um mega ventilador que afasta a névoa sombria (nem mesmo deuses conseguiram tal feito), frustrando os ansiosos fãs e diminuindo a emoção guardada por pelo menos 10 anos de aptidão ao MOBA.

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