Eduardo Gambier

Estudante de Jornalismo apaixonado por artes marciais, começou a cobrir esportes de combate aos 16 anos de idade, tendo entrevistado grandes lendas do esporte, como José Aldo, Maurício Shogun, Demian Maia e Rafael Cordeiro. Já atuou como comentarista em eventos do MMA Internacional, como o ONE FC e PFL. Nesta coluna fará análises de forma imparcial sobre os maiores eventos e lutadores do mundo da luta.

Nocaute

Anderson Silva: o legado

Por Eduardo Gambier 02/11/2020 • 09:47
Anderson Silva é um dos maiores lutadores da história do MMA
Anderson Silva é um dos maiores lutadores da história do MMA
Reprodução/Instagram Anderson Silva

Chegou ao fim uma das carreiras mais brilhantes do MMA contemporâneo. Anderson Silva deu adeus ao maior evento de arte marcial do mundo, após ser nocauteado por Uriah Hall, no sábado, 31. Sem sombra de dúvidas, o Spider merecia algo maior em sua despedida. Uma ótima alternativa seria protagonizar o co-evento principal do UFC 254, que vendeu aproximadamente 700 mil pacotes PPV e contou com Khabib Nurmagomedov na principal luta da noite. O casamento também deixou a desejar, faria mais sentido a trilogia com Chris Weidman, ou até mesmo uma luta inédita com Luke Rockhold, ex-campeão dos pesos médios da Organização.  

No entanto, Anderson deixou sua marca no UFC. O brasileiro despertou o interesse de Dana White quando enfrentou Tony Fryklund em 2006. Uma cotovelada de baixo para cima foi o suficiente para nocautear o adversário e a aprovação do chefão. Ainda no mesmo ano, faria sua primeira aparição no Ultimate contra Chris Leben.  

Comentarista de longa data, Joe Rogan conta que quase desmaiou ao ver o valor que estavam pagando pela derrota do então novato. Era zebra na proporção de três para um, e convencido do triunfo de Spider, ligou para um amigo dizendo para apostar a própria casa na vitória do brasileiro. O estreante surpreendeu durante o combate com boas combinações de golpes e nocauteou o americano com apenas 49 segundos do primeiro round. Foi também a luta mais rápida de toda a sua carreira. No compromisso seguinte, o brasileiro disputou o cinturão dos pesos médios contra Rich Franklin, que na época era um dos grandes nomes do evento. Com ótimo trabalho no clinch, o desafiante acertou boas joelhadas e definiu a luta ainda no primeiro round, se tornando o segundo campeão do Brasil na divisão até 83,9kg.  

Anderson Silva protagonizou grandes momentos no Ultimate durante 14 anos de contrato. O Spider se destacou com o reinado mais longo da história, foram quase sete anos de hegemonia na categoria, com dez defesas de título bem-sucedidas, além de ostentar a maior série de vitórias consecutivas com 16 triunfos.

Durante sua trajetória, Spider protagonizou vários momentos fora do comum. O chute memorável contra Vitor Belfort, a joelhada contra Stephan Bonnar e o show diante de Okami, em pleno Rio de Janeiro, são exemplos claros de domínio contra atletas de nível altíssimo. Um dos momentos mais extraordinários de Anderson ocorreu no UFC 101, quando o brasileiro subiu de categoria e venceu de forma excepcional o ex-campeão Forrest Griffin. Ele manteve boa distância sobre o oponente, conseguiu evitar qualquer tipo de aproximação e se esquivou de forma plástica de qualquer golpe lançado pelo americano. Foi simplesmente a maior atuação de um atleta dentro do UFC, parecia um duelo de profissional versus amador.  

Na edição de número 117, o astro realizou uma das maiores viradas já vista. Chael Sonnen representava um desafio desconhecido, era o atleta mais condecorado no wrestling e conseguiu imprimir seu ritmo, sendo superior até na luta em pé. Durante quatro rounds, o Gangster atropelou o campeão, mas nos últimos minutos, Anderson tirou um triângulo da cartola e encerrou o combate, honrando a faixa preta de jiu-jitsu concedida por Rodrigo Minotauro Nogueira. Posteriormente, o norte-americano caiu no exame antidoping e o resultado da luta terminaria em “No contest”, porém, já havia feito história e defendido o cinturão pela sétima vez.

Já em 2013, Anderson sofreu sua primeira derrota no Ultimate. O desafiante da vez era Chris Weidman, que chocou o mundo após nocautear o brasileiro no segundo round de luta. E a situação ficou mais delicada na revanche, quando Spider sofreu uma lesão traumática dentro do octógono. Quebrou a canela após um low kick defendido pelo até então campeão. Foi um momento doloroso de sua carreira.

Nos últimos sete anos, foram sete derrotas, uma vitória e um combate sem resultado, após falhar no exame antidoping. No dia 2 de fevereiro de 2018, o brasileiro testou positivo para Methyltestosterona, um esteróide anabolizante sintético e falhou pela segunda vez no teste da USADA, causando uma mancha na sua trajetória.

Com os melhores recordes da organização e um legado gigantesco, maus momentos não apagam um dos maiores sucessos do UFC. Mas afinal, quem somos nós para definir quando alguém deve ou não deixar aquilo que mais ama fazer? Anderson estava certo em continuar, era o que trazia alegria.  

O maior legado que o brasileiro deixa para nós, além dos cinturões e recordes, é a esperança. Anderson mostrou que o esporte tem a capacidade de mudar socialmente e culturalmente alguém. Quebrou um paradigma que estava enraizado e mostrou que o talento pode superar a infraestrutura bem segmentada. Muitos fãs começaram a acompanhar o MMA nos últimos sete anos e não dimensionam o domínio e a eficiência do Spider, o atleta mais genial dentro do octógono. Anderson Silva se tornou referência, tem aura de treinador e pode auxiliar muito bem a carreira do filho, que sonha em repetir os passos do pai. Dentro e fora do octógono, Anderson Silva é o maior lutador da história do Brasil e com certeza um dos maiores de todos os tempos. 

  • *Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Bandsports
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