Fábio Piperno

O jornalista Fábio Piperno participou in loco pelo Bandsports de coberturas de Copas do Mundo, Jogos Olímpicos, Libertadores e Copa América.

Nesses tempos de cólera no futebol, Garcia Marquez faz falta

Por Fábio Piperno 18/05/2021 • 16:54
Com surto de covid-19, River Plate vive situação dramática na Libertadores
Com surto de covid-19, River Plate vive situação dramática na Libertadores
Instagram/River Plate

O futebol sul-americano, o maior revelador de talentos desde sempre, continua com mais sorte que juízo. Nesta semana, discutimos se o River Plate terá goleiro em jogo da Libertadores, se a final do Campeonato Carioca será em Brasília e onde ocorrerá a Copa América, que começará em pouco mais de três semanas. O pior é que sempre foi assim.

No início da década de 50, bem antes de presentear a humanidade com o clássico Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marquez incluía o futebol entre os diversos temas de que tratava no jornal El Heraldo, de Barranquilla. Por sinal, o diário existe até hoje e é boa fonte de consulta quando o assunto é o Junior, o time do atacante Borja. Pois bem.

Naquele tempo, um dos principais destaques do futebol sul-americano era a liga pirata que se formou na Colômbia. Craques como o argentino Di Stéfano e o brasileiro Heleno de Freitas foram parar lá. Gabo, como também era conhecido o célebre romancista, adorava o atacante brasileiro, a quem chamava de Doutor Heleno em suas crônicas.

Se estivesse escrevendo hoje sobre a vida em Macondo, a cidade onde habitavam os personagens de Cem Anos, talvez encontrasse no futebol sul-americano inspiração ficcionista digna de ser romanceada. Ou quem sabe se o franco-argentino Albert Camus não visse no surto de Covid que devasta o elenco do River Plate algumas das digitais de A Peste, sua mais cultuada obra.

Fato é que só ficcionistas dos mais talentosos para interpretar a epidemia de insensatez que acomete nosso futebol. O episódio do River Plate é emblemático. Em tempos de pandemia, o regulamento da Libertadores ampliou para 50 o número de jogadores que cada time pode inscrever na competição. O contingente exagerado nada mais é que uma forma de precaução. Um pouco esnobe, e com déficit de juízo, o clube argentino inscreveu apenas 32, o quarto menor contingente do torneio. E esqueceu de avisar o coronavírus.

Com 20 jogadores infectados, sendo os quatro goleiros, mais outros dois lesionados, restaram apenas 10 para o jogo desta quarta-feira diante do colombiano Santa Fé. Para lançar mais gasolina no incêndio, tem a urgente questão da Copa América, a cargo do consórcio Argentina-Colômbia. Ocorre que o lado colombiano está em polvorosa, com a população nas ruas se manifestando contra um governo acuado, inerte.

Os manifestantes emulam o nosso velho conhecido #naovaitercopa. O governo e a federação local não querem nem saber de ouvir isso após muitos investimentos realizados. A Conmebol não sabe o que fazer. E o presidente da Argentina, Alberto Fernandez, põe mais carvão na fogueira ao anunciar que a Argentina pode organizar tudo sozinha. Os colombianos obviamente uivaram de raiva e descartam apoiar qualquer exceção em favor do River Plate.

Se a nossa vizinhança não se entende, por aqui os finalistas do paulistinha jogam terça, quinta e domingo, entre a decisão do estadual e a Libertadores. Enquanto os cartolas dizem amém ao calendário insano, técnicos reclamam e os músculos e cérebros dos jogadores sofrem.

Mas como a criatividade destrutiva anda em alta por aqui, o Flamengo lançou a incrível ideia de tirar a final do campeonato do Rio de Janeiro. Tudo para ganhar uns trocados com a presença de público em Brasília, onde o governador é rubro-negro fanático e o banco local patrocina o clube. Além de estapafúrdia, a proposta tropeça na mesquinharia. Seria pouco dinheiro e alto risco em tempos de pandemia, que ainda mata 2 mil pessoas por dia no país.

Só que o futebol sul-americano não anda muito preocupado com isso. Precisamos admitir que somos subdesenvolvidos porque nunca fomos muito inteligentes e sensatos. Como um Gabo faz falta nesses tempos de cólera e de insensatez!

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