Fábio Piperno

O jornalista Fábio Piperno participou in loco pelo Bandsports de coberturas de Copas do Mundo, Jogos Olímpicos, Libertadores e Copa América.

Os novos pobres da bola

Por Fábio Piperno 29/04/2021 • 16:12
Botafogo é um dos grandes clubes brasileiros que enfrentam grave crise financeira
Botafogo é um dos grandes clubes brasileiros que enfrentam grave crise financeira
Vitor Silva/Botafogo

Um dia, estava em um programa de rádio ao lado do grande Cláudio Zaidan. O tema era um debate entre quatro indicados. Não havia consenso sobre quem era o melhor. Nenhum deles era brasileiro. Um dos nomes em discussão era o de Pedro Rocha. Mestre Zaidan foi cirúrgico. “Rocha não é apenas o melhor da lista. Foi o melhor estrangeiro que atuou no Brasil”. Concordei na hora. E aí ficamos alguns minutos debatendo sobre a chance de um cracaço como Dom Pedro Virgílio Rocha, um mito das histórias de Peñarol, São Paulo e seleção do Uruguai, ser hoje contratado por um time brasileiro.

Com a concorrência da Europa, torna-se utopia imaginar que hoje um fora de série do nível de Rocha possa trocar seu país de origem pelo empobrecido Brasil. Nosso limite é um Arrascaeta. Sem dúvida um ótimo jogador para o atual padrão do nosso futebol, mas sem mercado entre os grandes europeus. E as coisas só tendem a piorar.

Não existe recessão ou crise mundial como a que estamos enfrentando por conta da pandemia que seja capaz de promover melhor divisão de renda e não a maior concentração do dinheiro. A consequência óbvia disso é que ficaremos mais pobres e nossos clubes não escaparão dessa realidade. E para piorar, as finanças de muitos deles já estavam bem vermelhas de vergonha e déficits bem antes de sabermos o que era coronavírus.

Temos agora o clube do bilhão. O “do bilhão” no caso é referente ao tamanho das dívidas. O Atlético Mineiro anunciou R$ 1,2 bilhão de passivo. O Corinthians quase um R$ 1 bi, o Cruzeiro havia chegado lá mas agora diz que reduziu um pouco e o Botafogo, que mal fatura 20% disso por ano, está pertinho. Banalizamos o bilhão. Sem contar que os demais grandes de São Paulo e Rio de Janeiro já ultrapassaram a barreira dos R$ 500 milhões de dívidas.

Claro que alguns, como Flamengo e Palmeiras, têm grande capacidade de geração de receitas, até porque estão ganhando mais com premiações. Mas e os demais? Sinto dizer que seu clube de coração em breve poderá ser rebaixado da condição de velho gigante para a de novo pobre. Mais ou menos como aquele sócio de clube tradicional, que tem prestígio, sobrenome ilustre e hábitos de gente fina, só que mal consegue pagar um cafezinho. Sem perder a pose.

Assim, fazer como o São Paulo do início dos anos 70 que foi ao Uruguai para trazer um jogo do nível de Pedro Rocha se tornará sonho cada vez mais distante. Uma utopia mesmo.

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