Fábio Piperno

O jornalista Fábio Piperno participou in loco pelo Bandsports de coberturas de Copas do Mundo, Jogos Olímpicos, Libertadores e Copa América.

Seleção mostra futebol a serviço da política

Por Fábio Piperno 08/06/2021 • 16:06 - Atualizado em 08/06/2021 • 16:08
João Saldanha foi sacado do comando da Seleção Brasileira
João Saldanha foi sacado do comando da Seleção Brasileira
Reprodução/Site Acerj

A discussão sobre se esporte e política se misturam é até desnecessária de tão evidentes que são as amplas e inseparáveis conexões entre os dois temas. Nos últimos dias, novamente a política e seus atores entraram em campo, desta vez para pressionar a seleção de Tite na questão da Copa América. O ativismo dos políticos, muitas vezes fardados, não é novidade quando se trata de interferir ou de tentar influenciar as ações da seleção brasileira. Em 1970, a atuação da ditadura para controlar o grupo que se preparava para a Copa do México era escancarada.

No livro “99 dias para o Tri”, que escrevi sobre a seleção de 1970 e ainda não publicado, descrevo como foram os dias seguintes à queda do técnico João Saldanha, comunista declarado e motivo de preocupação entre os militares. Seguem alguns trechos.

“Se no Rio de Janeiro o ambiente em que estava imersa a seleção havia entrado em ebulição, em Brasília o governo monitorava tudo, de forma bem atenta. Perto de completar seis anos no poder, o regime liderado pelos generais reforçava a repressão aos grupos da resistência armada. E claramente não interessava aos militares a instalação de outro front de luta, mesmo que fosse no bem menos belicoso campo esportivo. Em ano eleitoral, de votação para deputados e senadores, a ditadura precisava do sucesso da seleção para capitalizar o êxito nas urnas. Com inúmeros militares instalados em postos de comando do esporte, e com presença até mesmo na comissão técnica nomeada pela CBD, a cobrança pelo êxito da seleção se tornava mais explícita. Assim, não foi surpresa a convocação de João Havelange, o presidente da CBD, para que o dirigente fosse a Brasília prestar contas ao ministro da Educação, Jarbas Passarinho, a quem eram subordinados os órgãos de comando do esporte, como o Conselho Nacional de Deportes (CND) e, por tabela, a CBD. Não por acaso, Havelange foi acompanhado do presidente do CND, general Elói de Menezes, que afirmou que “por ele, Saldanha jamais teria sido técnico da seleção, pois é um temperamental, sem equilíbrio emocional, inadequado a uma posição de chefia”.

No encontro, o ministro exigiu tranquilidade para a seleção “sem tensões permanentes, polêmicas, lutas internas e entredevoramentos”. Cordato, o presidente da CBD prometeu ao ministro informar ao governo de “todos os passos da seleção” e a convocar uma junta médica para refazer os exames médicos de todos os jogadores convocados, o que incluía Toninho e Scala, e enviar os resultados das avaliações a Passarinho. Após a reunião, o ministro esclareceu que não haveria qualquer intervenção na CBD “pois é melhor não atrapalhar a já difícil preparação da seleção”.

Após a audiência com Passarinho, o périplo de Havelange pelo núcleo duro do governo prosseguiu. As escalas seguintes pelo Palácio do Planalto foram nas poderosas Casas Civil, chefiada por Leitão de Abreu, e Militar. Nesta última, o anfitrião foi o general João Batista Figueiredo, que em 1979 se tornaria o último presidente da república do ciclo militar. Para encerrar, teve encontro com o chefe do SNI, o temido Serviço Nacional de Informações, general Carlos Alberto Fontoura. Com esse tour pelo poder, o dirigente voltava para casa certo de que a sobrevida no comando do futebol brasileiro estava garantida.  

Afável com o regime, a CBD decidiu organizar um jogo-treino no Maracanã programado para o dia 30 de março em comemoração ao dia do golpe militar. Na comunicação oficial, Revolução. Não seria no dia 31 porque naquela data Médici faria pronunciamento pela televisão em rede nacional. Em campo, os titulares enfrentariam os reservas e uma taça seria entregue ao capitão do time vencedor.

A subserviência da CBD aos militares do governo se tornava cada vez mais explícita e incômoda, a ponto do influente e, à época, governista Jornal do Brasil publicar na edição de 21 de março o editorial intitulado “Esporte Político”, no qual manifestava contrariedade com o servilismo da confederação esportiva em relação às autoridades políticas que comandavam o país. “Não há como manter a chama de esperança quando o governo interfere diretamente e de público no trabalho de preparar a seleção”, criticou o jornal.  

A inquietação do jornal obviamente fazia sentido. O desfile de patentes se fazia onipresente na seleção. Entre os preparadores físicos estavam os capitães José Bonetti e Kléber Camerino. O preparador de goleiros era o subtenente Raul Carlesso. O capitão Cláudio Coutinho seria promovido a supervisor da seleção. Para chefiar a delegação no México foi escalado o Brigadeiro Jerônimo Bastos. Ficava cada vez mais evidente que ter um comunista como Saldanha para comandar o time em campo era um incômodo.

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