Rafael Augusto

Acredita no poder de contar uma história e que se for possível fazer a diferença para uma única pessoa, terá cumprido o seu papel. É formado em Jornalismo e tem especialização em Mídias Sociais. Atualmente no Bandsports, conta com passagens pela TV Band, ESPN, Olimpíada Todo Dia e Gazeta de Santo Amaro.

Brasileiros pelo Mundo

Cicinho, o brasileiro que sonha com uma Copa pela Bulgária

Da Redação BandSports 11/12/2020 • 18:11 - Atualizado em 11/12/2020 • 18:37
“Fazer parte da seleção e defender o país é um orgulho muito grande”, disse o lateral
“Fazer parte da seleção e defender o país é um orgulho muito grande”, disse o lateral
Divulgação

A Bulgária não fez uma boa campanha nesta edição da Liga das Nações. Após seis partidas, a equipe acabou na lanterna do Grupo 4 da Liga B, que seria a segunda divisão, e terá que jogar novamente a Liga C em 2022. A campanha foi ruim, é verdade, mas a menção se faz necessária, pois o destaque desta semana da coluna estreou pela seleção europeia justamente na competição.

No dia 6 de setembro, em partida contra o País de Gales disputada na cidade de Cardiff, Neuciano de Jesus Gusmão, conhecido como Cicinho, vestiu pela primeira vez a camisa alviverde da Bulgária.

“Fazer parte da seleção e defender o país é um orgulho muito grande”, conta o lateral de 31 anos. Ele se tornou o quarto brasileiro, mas o primeiro defensor, a representar a nação do leste europeu. Antes dele, Marquinhos, Marcelinho e Wanderson já haviam sido naturalizados em um movimento que começou ainda nesta década.

Cicinho em ação pela seleção da Bulgária/Divulgação

Passagens em times de três regiões do país até chegar ao futebol paulista

Apesar da idade, Cicinho não foi um jogador de muitos clubes no Brasil. Natural de Belém, o rápido e ofensivo lateral foi revelado pelo Remo, um dos grandes do estado paraense. Alguns poucos anos no profissional e dois títulos estaduais foram suficientes para o jogador rumar para o sul, onde defendeu o Juventude.

Por lá fez poucos jogos e logo recebeu uma oferta para atuar pelo Brasiliense em 2010. Em pouco tempo este seria o terceiro clube de uma região diferente do país, mas que para o jogador não tinha muita diferença no futebol.

“A diferença é o nível do campeonato, mas é um futebol que se tem muita improvisação e jogadores de qualidade que vão subindo degrau a degrau até chegar em um clube diferente”, explica.

A boa fase individual somada a um título estadual e uma campanha mediana na Série C foram suficientes para que ele chamasse a atenção da Ponte Preta e fosse contratado ainda em 2012.

O time campineiro seria o clube ideal para Cicinho se mostrar e ele chegou a atuar inclusive mais à frente do que na posição de origem. Novamente, o bom jogo chamou a atenção de diversos clubes do país, inclusive com uma disputa entre Santos e São Paulo. O alvinegro levou a melhor e contratou o jogador em 2013 e ele permaneceu no clube até 2015.

“Eu passei duas temporadas no Santos e foram proveitosas. No primeiro ano fomos vice paulistas e no segundo ano fomos campeões. Depois dessas duas temporadas teve a proposta de jogar aqui na Bulgária e foi em uma época que o Santos estava em crise e precisava vender jogadores”, relembra.

Para quem jogou em algumas das regiões do país, a proposta do Ludogorets Razgrad e a possibilidade de jogar a Liga dos Campeões foi como um sonho.

Time ‘brasileiro’ e supremo na Bulgária

Na chegada ao futebol búlgaro, Cicinho encontrou uma situação muito positiva. O Ludogorets já reinava na Bulgária e contava com muitos brasileiros que ajudavam a manter essa hegemonia.

Contudo, não foi sempre assim. Fundado em 1945 e com algumas trocas de nome ao longo do tempo, o time era tido como pequeno até a chegada do atual dono do time Kiril Domuschiev, um magnata do ramo farmacêutico e que sonhava em desenvolver um modelo de jogo em uma equipe do país que se tornasse vencedora.

Definitivamente é possível dizer que deu certo. Desde a temporada 2011/2012 o time é campeão nacional e ainda conquistou duas Copas da Bulgária e quatro Supercopas, além de participações frequentes na Liga dos Campeões e Liga Europa.

Cicinho coleciona troféus pelo Ludogorets/Instagram Cicinho

Os motivos de tanto sucesso se devem aos altos investimentos feitos pelo dono, além de uma predileção em reforçar o time sempre com atletas brasileiros, como no caso de Cicinho. O clube já chegou a ter nove jogadores nascidos aqui.

“O presidente gosta de jogadores brasileiros e os que vieram aqui sempre representaram o futebol brasileiro. O Ludogorets é conhecido por jogar um futebol bonito e ofensivo”, revela.

Cicinho completou cinco temporadas e já entrou em campo por mais de 150 partidas, o que o deixa entre os 20 jogadores que mais jogaram pelo time. Na última temporada, Cicinho ajudou o Ludogorets a vencer o nono título nacional consecutivo e o quinto dele. Os bons números e o tempo no clube contribuíram para que fosse lembrado.

Seleção: sem medo de racismo e parte da renovação

Depois da estreia, Cicinho já representou a seleção da Bulgária por cinco vezes. As convocações foram de um velho conhecido, o técnico Georgi Dermendzhiev, que foi quem trouxe Cicinho em 2015 para defender o Ludogorets.

“O treinador eu já conhecia, é competente e levou o clube aqui (Ludogorets) para a Champions League, tem quatro ou cinco títulos seguidos. Ele já tinha levado outros brasileiros, no caso o Wanderson e o Marcelinho”, fala.

Mesmo tendo outros três brasileiros que defenderam a seleção, há um ponto que poderia representar uma preocupação para o jogador que é a questão do racismo, mas ele se sente tranquilo. No ano de 2019, em partida contra a Inglaterra, torcedores fizeram gestos nazistas e imitaram macacos em ofensa a jogadores ingleses.

Cicinho destacou que nunca foi alvo de racismo no país/Divulgação

“A Bulgária toda repudiou aquele grupo de torcedores e comigo nunca aconteceu, graças a Deus. Os brasileiros do Ludogorets são muito respeitados aqui até pela construção do clube, pois trouxe mais visibilidade ao futebol búlgaro”, salienta.

Aliás, mais visibilidade é o que Cicinho busca para o país agora que defende a seleção. Desde 1998 a Bulgária não se classifica para uma Copa do Mundo e ainda vive com a campanha histórica da geração de ouro comandada por Hristro Stoichkov, que terminou a Copa de 1994 na quarta colocação.

“Realmente faz muito tempo que a seleção não classifica. Eles estão reformulando e tem muitos jogadores jovens e de qualidade sendo chamados. É claro que necessita de um tempo, mas eles vão formar outra vez uma seleção muito forte e eu acredito que em breve poderá voltar a disputar uma Copa do Mundo”, finaliza.

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