Rafael Augusto

Acredita no poder de contar uma história e que se for possível fazer a diferença para uma única pessoa, terá cumprido o seu papel. É formado em Jornalismo e tem especialização em Mídias Sociais. Atualmente no Bandsports, conta com passagens pela TV Band, ESPN, Olimpíada Todo Dia e Gazeta de Santo Amaro.

Brasileiros pelo Mundo

Lucas Kaufmann, um camisa 10 quase finlandês

Por Rafael Augusto 14/04/2021 • 16:12
Meia brasileiro de 30 anos atua no FC Honka, time que disputa a primeira divisão
Meia brasileiro de 30 anos atua no FC Honka, time que disputa a primeira divisão
Divulgação/FC Honka

A Finlândia é um país que não tem o futebol como o principal esporte, mas vem avançando no desenvolvimento da modalidade e, inclusive, conseguiu uma histórica classificação para a Euro 2020, que será disputada em junho de 2021, devido a pandemia.

Esta será a primeira vez que o país disputará a competição continental de seleções e a coluna aproveita para contar a história de Lucas Paz Kaufmann, meia brasileiro de 30 anos que atua no FC Honka, time que disputa a Veikkausliga, a primeira divisão, finlandesa.

“Esse ano eu completo dez anos na Finlândia. Um ano especial. A vida para o cidadão que não joga futebol é excepcional, não à toa é exemplo para nós brasileiros em questão de sociedade, política e educação”, explica o jogador.

Além de Lucas, outros cinco brasileiros atuam na Veikkaulisga. Contudo, o personagem desta semana é o segundo que está há mais tempo lá e pode acompanhar toda a campanha histórica da seleção que influencia diretamente no interesse do povo finlandês pelo futebol e, consequentemente, na melhora do futebol por lá.

Lucas atua no futebol finlandês há 10 temporadas. Foto: Divulgação/FC Honka


“É inacreditável para ser bem sincero o quanto esses feitos da seleção podem ajudar a desenvolver o futebol por aqui. Até essa Euro, a seleção nunca conseguiu participar de nada, nunca ganharam nada e isso acaba afetando como o país procura incentivar o futebol e como as pessoas se sentem envolvidas com o futebol. Enquanto isso a seleção de hóquei no gelo é campeã mundial, chega em final, semifinal e participa de Olimpíadas. A população se identifica mais e isso reflete. O salário médio de um jogador de hóquei deve ser quatro vezes maior do que um jogador de futebol”, explica.

Começo no Inter, passagem por Portugal e ida à Finlândia

Natural de Porto Alegre, Lucas Kaufmann fez a base em clubes como o Inter e outros da região sul do país. A sua característica de meia ofensivo, tanto que usa a camisa 10 no FC Honka, não nega que o futsal fez parte da formação do jogador.

“Eu comecei jogando, como todo brasileiro, futsal no colégio. Eu joguei até os 8 ou 9 anos no Internacional e depois me mudei para o campo. No Inter eu fiquei até os 14, quando o futebol era um pouco mais competitivo e time grande no Brasil é difícil se manter e acabaram me dispensando com jogadores que estavam lá há bastante tempo, vítimas principalmente da nossa condição física. Eu saí do Inter e me mudei para o Cerâmica-SC e depois voltei para Porto Alegre para jogar no juvenil do São José-RS”, lembra.

Apesar do começo em um clube como o Inter, o jogador encontrou dificuldades para prosseguir a carreira e quanto mais se aproximada da idade do profissional, o desafio foi ficando maior, tanto que em certo período ele preferiu optar por estudar a jogar profissionalmente.

“Neste período de terminar o colégio e ingressar na faculdade, eu conversei com o São José e não estava claro o que queriam de mim, então decidi focar em ingressar na faculdade. Eu cursei um ano de faculdade e estava jogando em um time mais por diversão, para ter algo mais competitivo com relação ao futebol, mas já não almejava tanto e foi quando eu tive a oportunidade de sair para Portugal e jogar no juvenil do Mafra, que na época estava na terceira divisão”, relembra.

A ida a Portugal ainda não era o passo definitivo que Lucas buscava para a carreira e veio a oportunidade de trocar um país que estava em 6º no ranking da UEFA por um que estava em 44º.

“Como essa época eu estava em Portugal atuando na base, eu não tinha salário ou um compromisso. O clube não exigia que eu me mantivesse lá, eu conversei com eles e queriam manter como estava. Eu tinha um amigo, que por meio de um agente, estava vindo para a Finlândia jogar na terceira divisão e ele me perguntou como estava a minha situação e se não queria a chance de jogar em um outro lugar. Eu aceitei e ingressei em um clube que jogava a quarta divisão finlandesa”, explica sobre a chegada a um novo país.

Uma década na Finlândia: futebol e vida

Com uma década no país nórdico, o brasileiro passou por todas as divisões do futebol finlandês e defendeu outros quatro times (Pallokerho, PK-35 Vantaa, Ekenas IF e HJK Hensilque) até chegar ao FC Honka, no qual já está há cinco temporadas: “eu até brinco com os meus companheiros de time que eu subi todos os degraus, joguei todas as divisões, e se alguém aqui é o verdadeiro finlandês, esse alguém sou eu”.

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Brasileiro já defendeu cinco times na Finlândia. Foto: Divulgação/PF-35 Vantaa


Os feitos e o tempo residente na Finlândia poderiam ter motivado um convite para naturalização, mas Lucas explica que nunca teve essa oferta e ressalta que a vida oferecida para um estrangeiro é muito boa.

“Aqui a taxa de impostos é tão alta quanto no Brasil, mas você recebe retorno. As escolas, os hospitais, a maioria das coisas são de acesso gratuito. Eu acho que as pessoas não veem tanto problema de pagar tantos impostos, pois tem retorno. É um país mais bem desenvolvido nessa área e eu sou prova disso, pois tive a oportunidade de cursar faculdade aqui e sou formado em negócios internacionais e pude usufruir como um estrangeiro”, explica.

Com tanto tempo no país, ele já cumpriu alguns feitos interessantes no campo, como número de partidas como estrangeiro, eleição de melhor jogador das divisões inferiores por duas vezes, o líder de assistências da Veikkausliga e outras premiações.

“Eu tenho vários feitos e é até difícil de dizer uma, pois todas foram muito importantes no momento que aconteceram. Eu fui eleito melhor jogador do meu time três ou quatro vezes, fui o melhor jogador de ligas inferiores duas vezes, fui líder de assistência da Veikkauliga dois anos atrás. Individualmente é difícil dizer”, comenta.

Ainda em busca de uma grande conquista, o jogador se mostra satisfeito com o período e o que construiu no país: “agora na Veikkausliga, a melhor posição foi um terceiro lugar. Estamos há quatro anos seguidos com o Honka e nos últimos três anos conseguimos duas vagas para competições continentais. Ainda não fui campeão nem da Copa e nem do Campeonato, mas acho que consegui quase o máximo possível de um jogador aqui”, finaliza.

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