Rafael Augusto

Acredita no poder de contar uma história e que se for possível fazer a diferença para uma única pessoa, terá cumprido o seu papel. É formado em Jornalismo e tem especialização em Mídias Sociais. Atualmente no Bandsports, conta com passagens pela TV Band, ESPN, Olimpíada Todo Dia e Gazeta de Santo Amaro.

Brasileiros pelo Mundo

Marcos Tavares: "The Last Dance" da lenda brasileira da Eslovênia

Por Rafael Augusto 11/10/2021 • 14:21
Atacante fará temporada de despedida após 14 anos defendendo o Maribor
Atacante fará temporada de despedida após 14 anos defendendo o Maribor
Reprodução/Instagram

O status de lenda em um clube e em um país é algo muito difícil de se atingir na carreira de um jogador. Isso requer uma combinação de conquistas, recordes, feitos, tempo dedicado ao time e química com a torcida.

A coluna desta semana traz a história de Marcos Magno Moreira Tavares, ou simplesmente Marcos Tavares, atacante brasileiro de 37 anos que fará a sua despedida do futebol profissional. E a importância dessa aposentadoria é tamanha, pois ele tem justamente a alcunha de lenda na Eslovênia, algo que atingiu atuando pelo Maribor, equipe fundada em 1960 e que é a mais bem-sucedida do país.

Prestes a completar 14 anos vivendo por lá, Marcos Tavares detém recordes que já seriam notáveis para um jogador esloveno, mas que se tornam ainda mais emblemáticos por se tratar de um estrangeiro.

Ele é o maior artilheiro da história do clube (209 gols até o momento da publicação) e também da Prva Liga, a primeira divisão eslovena (157 gols até o momento da publicação); além destes números, ele também é o recordista de partidas com a camisa do clube (584 jogos até o momento da publicação) e também da Prva Liga (427 até o momento da publicação).

Todos os feitos alcançados por são impactantes, mas evidenciam que não se trata apenas de futebol, mas sim de pertencimento, tanto que o jogador tem a nacionalidade eslovena e seus filhos tiveram muito mais vivência no país do leste europeu do que propriamente no Brasil.

“Eu sempre falo que eu consegui jogar bem, hoje estou neste país, tive sucesso e não por causa só do futebol, mas porque as pessoas me receberam bem e isso fez com que eu jogasse e conseguisse me adaptar. É maravilhoso ficar aqui. Depois da carreira queremos viver na Eslovênia. Três filhos meus nasceram aqui, a primeira língua deles, e eles conversam em casa, é a eslovena, os amigos deles são daqui. O país é seguro. Para educação e para criar os filhos é um país muito bom”, explica o jogador que após o término do contrato continuará trabalhando na parte diretiva do Maribor.

Marcos Tavares: maior artilheiro da história do Maribor. Reprodução/Instagram


Nesta temporada, Marcos Tavares tem se recuperado ainda de um procedimento que fez no joelho e não atuou.

Troca de rival na base e obstáculos para se firmar no Brasil

Natural de Porto Alegre, Marcos Tavares teve uma infância humilde e com dificuldades, realidade que infelizmente é comum para alguns dos jogadores brasileiros. Contudo, o futebol permitiu que ele vencesse, tendo inclusive começado em clubes grandes e passado por seleções de base.

“Eu comecei no Inter com 9 anos de idade e depois eu fui comprado pelo Grêmio com 13 anos. Eu fui morar no Estádio Olímpico e aos 14 fui jogar na seleção brasileira. Joguei o sub-15, sub-17, sub-21 e sub-23. Eu joguei com Diego Ribas que está hoje no Flamengo, Marquinhos, Edu Dracena, Dani Alves, Felipe, goleiro que foi do Corinthians, Morais, que jogou no Vasco, joguei com esses jogadores”, relembra.

A chance no profissional veio com o técnico Tite, hoje comandante da seleção brasileira, que subiu o jovem Marcos Tavares. Contudo, a experiência no futebol brasileiro, que ainda teve uma passagem pelo Athletico-PR acabou não sendo positiva.

“Eu sempre penso que tudo que eu fiz na Eslovênia, todos os gols, se eu fizesse no Brasil ia ser totalmente diferente. Porém no Brasil eu não consegui ter inteligência emocional, controlar tudo que eu vivi, um garoto, um menino que saiu de uma cidade perigosa, que não tinha, quando criança, comida direito, dormia no chão, aí depois fui para a seleção, amigo do Ronaldinho Gaúcho, pois jogamos no profissional juntos. Aí eu comecei a ter dinheiro, ser uma pessoa famosa, eu não consegui aguentar tudo que estava vivendo. Aí vieram as festas, bebida e por causa disso eu não joguei futebol no Brasil e tive que sair”, conta.

Bom início na Ásia e chance na Europa

A primeira oportunidade para sair do Brasil foi em 2004 com uma proposta para atuar no futebol asiático, mais precisamente na Malásia, destino de muitos jogadores do país. Por lá, Marcos vestiu a camisa do Kedah, um dos clubes grandes do país.

“A minha experiência na Malásia foi muito boa. Eu joguei três temporadas, fui artilheiro e campeão. É um país muito bom, onde as pessoas de fora não olham tanto para o futebol, mas o país ama o futebol. Eu joguei uma final que tinham 90 mil pessoas no estádio. A experiência foi muito boa”, fala.

Apesar das boas temporadas na Malásia, uma proposta para atuar no futebol europeu e disputar a principal competição de clubes do mundo, a Champions League, fez a diferença e Marcos foi defender as cores do Apoel, do Chipre, mas por pouco tempo.

“O presidente contratou vários brasileiros para jogar a Champions League, mas naquele ano não passamos na fase de classificação, daí ele falou que os brasileiros não teriam muitas oportunidades e por conta disso eu preferi sair e buscar outro clube”, conta.

A construção da história lendária

O insucesso no Apoel e o contato de um amigo foram a ponte para que Marcos Tavares mudasse para aquele que viria a ser o clube definitivo de sua vida e história. Em 2008, o ex-jogador Nilton Rogério Cardoso também estava no Chipre, mas se transferindo para o Maribor estendeu o convite para Marcos se juntar a ele.

“Eu disse que sim, toparia, vim, paguei a minha própria passagem e fui fazer um jogo para me verem. Nesse jogo gostaram de mim e assinei contrato. Eu não sabia que ia ficar tanto tempo”, relata.

“A Europa é a combinação perfeita para o jogador de futebol", diz Marcos. Reprodução/Instagram


E para fazer sucesso na Eslovênia foi preciso uma adaptação no estilo de um jogo, um aprendizado que os jogadores brasileiros adquirem sempre que atuam no futebol europeu.

“A Europa é a combinação perfeita para o jogador de futebol. O brasileiro tem técnica, habilidade e visão de jogo e o europeu tem mais tática, obedece mais o que o treinador fala.

Então essa parte que falta para o brasileiro eu recebi aqui na Europa. Eu tive que aprender a defender e a correr mais. Eles falam que o atacante é o primeiro defensor, então tudo começava comigo, eu tinha que dar o primeiro sinal para a defesa”, explica.

Começava ali uma história incrível de um jogador com um clube, uma torcida e um país. Marco Tavares acumula 8 títulos da Prva Liga, mais da metade dos 15 que o clube detém como o maior vencedor no país. Além disso, foram outras 4 Copas da Eslovênia e 4 Supercopas, totalizando incríveis 16 conquistas pelo clube.

Idolatria está marcada na pele dos torcedores. Reprodução/Instagram


E a história ainda vai continuar. Na renovação do contrato para este ano de despedida, ele já se alinhou com a direção a continuar no clube, na parte diretiva, em um cargo que ainda não foi definido. Isso dará seguimento ao lendário Marcos Tavares, do Maribor.

“Hoje eu sou um jogador respeitado, sou a lenda do país e se eu estivesse no Brasil não seria conhecido como sou aqui. A história que fiz aqui, ninguém fez”, finaliza.

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