Rafael Augusto

Acredita no poder de contar uma história e que se for possível fazer a diferença para uma única pessoa, terá cumprido o seu papel. É formado em Jornalismo e tem especialização em Mídias Sociais. Atualmente no Bandsports, conta com passagens pela TV Band, ESPN, Olimpíada Todo Dia e Gazeta de Santo Amaro.

Brasileiros pelo Mundo

Yuri de Souza: artilheiro em 15 anos na Espanha, acima dele só Messi e CR7

Por Rafael Augusto 08/11/2020 • 11:17
Yuri comemora o gol que o tornou o maior goleador da história da Ponferradina
Yuri comemora o gol que o tornou o maior goleador da história da Ponferradina
Divulgação La Liga

“El Capitán”

“El Mago de Maceió”

“O Fenomeno”

O futebol espanhol e mundial teve uma disputa que o dividiu por cerca de uma década tendo como personagens Messi, pelo Barcelona, e Cristiano Ronaldo, pelo Real Madrid. Pelo contexto envolvido é compreensível que toda a atenção fosse atraída para estes dois gigantes e para a La Liga, a primeira divisão espanhola.

Porém, paralelamente, durante este período de embate direto entre os dois astros, um brasileiro foi construindo uma história incrível no país ibérico dentro de um clube e de uma competição, no caso a Liga Smart Bank, a segunda divisão espanhola.

Yuri de Souza, de 38 anos, se tornou nestes anos uma lenda da SD Ponferradina, time da região de León, no noroeste da Espanha, embora possa ser desconhecido para muitos, e faz sentido, afinal ele nunca atuou no futebol brasileiro.

“Eu gostaria de ter jogado no Brasil, mas nunca surgiu a oportunidade. Era um sonho que eu gostaria de realizar e fica difícil pela idade, mas não me arrependo de ter ficado aqui. Sabemos que todo mundo gostaria de ter jogado na Europa”, explica com um pouco de sotaque, misturando palavras em espanhol e português.

Apesar do anonimato por aqui, Yuri tem fama na Espanha e carrega alguns apelidos dados pela torcida e imprensa, como “El Capitán”, “El Mago de Maceió” e “O Fenomeno”. As alcunhas são, principalmente, pelo o que ele fez com a camisa 10 e a faixa de capitão da Ponferradina.

Além de tudo, ele é sinônimo de gol. Desde que estreou no futebol espanhol, em 2005, Yuri é o terceiro maior goleador (mais de 200 gols) entre as três principais divisões da Espanha. Acima dele estão somente os dois jogadores que monopolizaram a disputa do futebol mundial nos últimos anos e que ainda estão em atividade: Messi (mais de 450 gols) e Cristiano Ronaldo (mais de 310 gols).

“Somente eles marcaram mais gols do que eu. É um orgulho, um prazer poder estar nesta lista. É algo que vou poder contar para os meus filhos. Sei do nível de Cristiano e Messi e me sinto orgulhoso”, conta Yuri.

Futebol é tradição na “família do gol”

Tornar-se um jogador de futebol era algo natural dentro da família Souza. O pai de Yuri, Alex, fez carreira e no futebol brasileiro atuou como volante em times como CRB, CSA e Sport. No final da década de 1980, ele recebeu uma proposta e se mudou para jogar no futebol português, país no qual Yuri teve o seu início no futebol e que também lhe rendeu a cidadania portuguesa.

Apesar do vínculo e tendo Portugal como berço, a casa da família é o futebol espanhol. Além de Yuri, o irmão Igor de Souza, de 40 anos, é mais um atacante de sucesso e que hoje defende o La Virgem del Camino, time da terceira divisão. Atuou também na Grécia e no Brasil, além do futebol português.

E não para por aí, eles são primos de Charles Dias, de 37 anos, que, mantendo a tradição familiar, também se tornou um atacante. Atualmente, Charles defende o Pontevedra, time da terceira divisão. Ele é filho do também ex-jogador Raimundo do Carmo de Oliveira Barbosa, conhecido como Careca, que atuou no futebol paranaense, no Santos e em Portugal.

A família chegou a ter os três jogando juntos no Pontevedra entre 2006 e 2007 e tem uma marca incrível, somados os três acumulam quase 500 gols no futebol espanhol.

Início em Portugal e chegada à Espanha

Com a mudança do pai para atuar no futebol português, todo o desenvolvimento e o aprendizado de futebol de Yuri foi por lá e contribuiu muito para que ele se tornasse o atacante com faro de gol que se tornou.

“Foi onde eu comecei desde pequeno e foi espetacular, pois com 16 anos eu assinei o meu primeiro contrato profissional. O futebol português me deu tudo”, lembra.

Foram cinco temporadas por lá. O início foi no FC Maia, em 2000, time que disputava a segunda divisão. O bom desempenho e a característica goleadora do atacante esguio, com 8 gols em 19 partidas no primeiro ano e 18 em 29 no segundo, não tardou a chamar a atenção das equipes da elite, e o tradicional Boavista o contratou. Ele teve ainda outras duas passagens por Gil Vicente e Estoril Praia, equipes da primeira divisão, com gols, mas poucos minutos em campo, o que o fez querer se transferir.

A proximidade entre Portugal e Espanha faz também com que a busca por contratações seja mais frequente. O Pontevedra, time da Segunda B (terceira divisão), fez uma proposta.

“Conversei com o meu primo [Charles Dias] e ele me disse para não pensar duas vezes e assinar, pois era um clube muito bom e o futebol espanhol tinha muita qualidade”, relembra.

A temporada é a de 2005, 15 anos atrás, e aí começou a trajetória de um dos jogadores que mais balançou a rede no país, independentemente da divisão.

A chegada ao Pontevedra foi impactante. No primeiro ano, marcou 22 gols e se tornou o artilheiro do grupo A da divisão (a terceira divisão tem 102 times divididos em grupos de acordo com a posição geográfica). No segundo ano, novamente no topo da artilharia do grupo, anotando 23 gols.

Apesar dos gols, a equipe não conseguiu o acesso e Yuri foi contratado por empréstimo pelo Las Palmas por uma temporada para jogar a segunda divisão. O desempenho ficou aquém do esperado e ele ainda retornou para uma última temporada antes de acertar com a Ponferradina e começar a construir uma grande história em um clube.

A construção do ídolo

Na temporada 2009/2010, Yuri fez a primeira temporada pela Ponferradina e ajudou a conquista o título e o acesso à segunda divisão. Os gols foram poucos, é verdade, mas o time conseguiu o objetivo.

Na temporada seguinte, uma lesão atrapalhou o brasileiro, que marcou seis gols em 19 partidas na segunda divisão e viu o time cair.

A terceira temporada (2011/2012) começou a transformar o jogador em um dos preferidos pela torcida. Ele marca 27 gols em 42 partidas, o que dá uma média de 0.64 gol por jogo, a sua melhor temporada pelo clube, que termina novamente com o retorno para a segunda divisão e ele com o prêmio de vice-artilheiro.

De volta à Liga SmartBank, o Ponferradina fez a sua melhor temporada na Série B, quando ficou mais próximo de subir para a primeira divisão e terminou em 7º graças aos 21 gols em 40 partidas (média de 0.53) do brasileiro. O bom desempenho de Yuri chamou a atenção de clubes da primeira divisão e de outros países, mas ele renovou contrato por mais três anos.

Nos três anos seguintes, a Ponferradina fez campanhas irregulares, com a fuga do descenso em 2013/2014, uma nova batida na trave pelo acesso em 2014/2015 e o rebaixamento para a terceira em 2015/2016.

Yuri seguiu sendo o destaque do time no período e recebeu uma oferta para jogar no futebol chinês e defender o Qingdao Huanghai. Ele deixou o clube com 96 gols marcados, sendo o artilheiro do time em cinco temporadas seguidas.

Temporada na China e retorno para se tornar “Deus”

A missão de Yuri parece ser mesmo ajudar times a subir de divisão. A ida para o futebol chinês foi para atuar na segunda divisão do país e ele novamente teve bom desempenho com dez gols e cinco assistências, que deixaram o Qingdao Huanghai em terceiro lugar na tabela.

Em janeiro de 2017, o chamado para voltar para casa. A Ponferradina readquiriu o ídolo que, aos 34 anos, voltava para tentar levar a equipe à divisão superior. E foi neste período que Yuri trilhou o caminho para se tornar o maior da história do clube.

Em três temporadas na Segunda B (terceira divisão), Yuri se tornou o jogador que mais marcou gols pela equipe nesta divisão (o clube disputou 21 temporadas na terceira) e o que mais vestiu a camisa da equipe nesta divisão, bem como o primeiro a conseguir três acessos, este último na temporada 2018/2019.

Na temporada passada, 2019/2020, Yuri se tornou “Deus” para os torcedores. Os 18 gols que marcou na última temporada também o transformaram no maior artilheiro do clube na segunda divisão, mas tem um especial. A campanha irregular foi de luta contra o rebaixamento e coube a ele marcar o gol decisivo da vitória por 2 a 1 sobre o Almería, o que garantiu a permanência. O tento o transformou ainda no maior artilheiro da história do clube, pois era o 157º gol com aquela camisa.  

São diversos feitos na carreira de um jogador por um clube, mas Yuri ainda persegue dois: o de se tornar o atleta que mais vezes vestiu a camisa do clube e também o de levar a equipe para à primeira divisão do Espanhol, o que seria inédito.

“O meu sonho era conseguir chegar à primeira. É difícil pelo nível que tem aqui, mas não é impossível, e no futebol sabemos que tudo pode acontecer”, salienta, adiantando que não pensa em aposentadoria. “Tenho muito carinho e amigos e espero continuar por muitos anos ainda aqui”, finaliza.

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