Notícias

O que explica um domínio tão grande do Brasil na Libertadores?

Da Redação Bandsports 26/11/2021 • 07:26 - Atualizado em 26/11/2021 • 08:07
Palmeiras e Flamengo farão a segunda final brasileira seguida na Libertadores
Palmeiras e Flamengo farão a segunda final brasileira seguida na Libertadores
Instagram/Raphael Veiga e Paula Reis/Flamengo

A Libertadores terá uma final brasileira pela segunda vez seguida. Depois de Palmeiras e Santos, agora serão Palmeiras e Flamengo que disputarão o título da edição 2021. Não é uma coincidência. Os clubes brasileiros se tornaram mais e mais fortes ao longo dos últimos 20 anos, a ponto de terem conquistado 4 dos últimos 5 títulos da Libertadores - já contando o deste ano. Os processos que levaram a isso combinam alguns fatores, como aumento substancial de receitas, aumento de vagas para o país e crises econômicas que afetaram mais os vizinhos do que o Brasil. 

A Libertadores 2021 começou com oito clubes brasileiros, ou seja, 40% da Série A. Destes, sete disputaram a fase de grupos, com um eliminado nas fases preliminares. Seis se classificaram às oitavas de final e cinco avançaram até as quartas de final – ou seja, mais da metade das quartas de final foi com clubes brasileiros. Na semifinal, foram três clubes brasileiros e um equatoriano, que ficou pelo caminho. A final será totalmente brasileira pela quarta vez na história, depois de 2005, 2006 e 2020. O cenário atual do futebol sul-americano indica que o domínio dos brasileiros deve continuar por mais algum tempo.

Para entender um pouco melhor esse protagonismo verde e amarelo na competição, o blog Betway Insider preparou um conteúdo detalhado que explica o crescimento dos clubes nacionais na Libertadores. Confira abaixo alguns pontos de destaque.

Explosão nas receitas dos clubes brasileiros

O aumento do número de títulos brasileiros especialmente após 2011 tem uma razão simples: os clubes ficaram mais ricos com um novo contrato de TV do Campeonato Brasileiro. Com a implosão do Clube dos 13 naquele ano, os contratos de direitos de transmissão passaram a ser negociados individualmente entre os clubes e a TV.

Além das receitas de TV, dois outros fatores importantes melhoraram a situação financeira dos clubes brasileiros: receitas com sócios-torcedores e transferências de jogadores, este último ponto especialmente por causa da desvalorização do real em relação ao dólar. A combinação de todos esses fatores fez as receitas dos clubes brasileiros explodirem.

Segundo o Levantamento Financeiro dos Clubes Brasileiros 2020, da consultoria Ernst & Young (EY), os clubes brasileiros tiveram um crescimento de 152% na receita total entre 2011 e 2020. Mesmo se descontarmos a inflação, que teve alta no período, o aumento real de receitas é de 86%, algo impressionante em um período tão conturbado economicamente em todo o continente, especialmente nos últimos anos.

“Na análise que realizamos na EY, não observamos correlação direta entre o crescimento econômico do país com o aumento das receitas dos clubes, isso em âmbito global. Podemos observar que toda a Europa foi afetada pela crise econômica de 2008 e ainda assim a receita dos clubes europeus continuou crescendo, afinal o futebol é líder de audiências em quase todo o mundo, move a paixão dos torcedores, o que torna um produto atrativo para o investimento de grandes empresas em patrocínios, tanto para os grupos de mídia quanto para os próprios clubes”, explica Pedro Menezes, Senior Business Consulting da EY, à Betway.

Comparação com os rivais sul-americanos

Em novembro de 2019, a Pluri Consultoria elaborou o relatório “Gigantes das Américas”, com a comparação de receitas dos clubes de todas as Américas (Norte, Central e Sul) em 2018. O resultado mostra o tamanho da dominância financeira dos brasileiros na América do Sul. Dos 20 clubes com maiores receitas das Américas, 10 eram brasileiros, cinco mexicanos, quatro argentinos e um americano.

Dos 60 clubes que aparecem no ranking, 19 são brasileiros. Os dois gigantes argentinos conhecidos internacionalmente, Boca Juniors e River Plate, estão apenas em sexto e sétimo lugares no ranking, atrás de Palmeiras, Flamengo, Corinthians e São Paulo, além do Chivas Guadalajara, do México – finalista da Libertadores em 2010, quando os mexicanos ainda participavam do torneio. Aliás, o Tigres, em 29º lugar no ranking, foi outro finalista da Libertadores em 2015, contra o River Plate.

Argentina em crise econômica e futebolística

Boca Juniors e River Plate são os dois maiores clubes argentinos e, pelo seu gigantismo, ainda conseguem competir na Libertadores, mas mesmo os dois tiveram o poder de fogo minado nos últimos anos. Em um contexto de crise econômica no país, com a Associação de Futebol Argentino (AFA) passando pela maior crise de poder da sua história, desmandos no futebol local e uma desorganização enorme do Campeonato Argentino, os clubes do país perderam ainda mais força em relação aos brasileiros.

“A Argentina tem problemas econômicos desde que se tornou independente da Espanha em 1816. E nesse tempo, o futebol sequer existia. Quando o país soube se recuperar, desperdiçou suas vantagens. Quando ficou sem dinheiro, pediu emprestado. E o esporte ficou sem pesos, sem dólares, sem nada. E o futebol piorou. Os clubes empobreceram. E as famílias empobreceram. E as famílias se destruíram. Nesse contexto, com um pouco de vento a favor, o Brasil conseguiu uma diferença notável. E isso que nem tudo que reluz é ouro... Problemas há em todos os lugares”, diz Martin Macchiavello, jornalista argentino do diário Olé.

Saída de mexicanos e mais vagas para brasileiros e argentinos

Os clubes brasileiros já eram fortes e vencedores quando os mexicanos saíram da Libertadores, a partir da edição 2017, mas esse domínio aumentou. Como vimos, os mexicanos são os que mais se aproximam dos brasileiros em termos de receitas e eram clubes que constantemente chegavam às fases mais adiantadas da competição desde que passaram a integrar o torneio, em 1998.

Com a mudança do calendário da Conmebol e a Libertadores sendo disputada por todo o ano, os mexicanos decidiram não mais participar por uma questão de conflito de calendário. Sem eles, a Conmebol perdeu não só clubes fortes, de alto poder de investimento, mas também o interesse da imprensa e do público mexicano, um mercado enorme e importante.

Para compensar, a entidade aumentou o número de vagas de clubes brasileiros e argentinos. O torneio foi expandido de 38 para 47 clubes e o Brasil passou a ter 7 vagas, enquanto a Argentina aumentou o número de participantes para seis, formato que permanece até hoje. 

Além disso, algumas regras fazem com que os brasileiros possam ter até nove participantes na Libertadores, porque o atual campeão tem vaga garantida e o campeão da Sul-Americana também vai à Libertadores. Como todos os finalistas são brasileiros, teremos 9 brasileiros na Libertadores 2022. Quase metade da tabela da primeira divisão brasileira disputará o principal torneio do continente ao mesmo tempo.