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Por que Paulinho comemorou gol "atirando" uma flecha? Professor explica

Romulo Tesi 22/07/2021 • 12:14 - Atualizado em 22/07/2021 • 19:19
Paulinho atira flecha de Oxóssi em comemoração no quarto gol do Brasil sobre a Alemanha
Paulinho atira flecha de Oxóssi em comemoração no quarto gol do Brasil sobre a Alemanha
Lucas Figueiredo/CBF

Ao marcar o quarto gol do Brasil contra a Alemanha, nesta quinta-feira, 22, Paulinho fez um gesto como se atirasse com arco e flecha imaginários. Apesar do arco ser uma modalidade olímpica, a comemoração tem a ver com a religião do atacante.

Paulinho é candomblecista e, como se fala na religião, é filho de Oxóssi, o orixá das matas e florestas. Conhecido como o orixá caçador, Oxóssi usa o arco e flecha como ferramenta, chamada de ofá. Uma das coreografias do orixá nas festas – os xirês – é justamente a flechada. Por isso o atacante fez o gesto de atirar uma flecha imaginária, em homenagem ao seu guia.

O professor e escritor Luiz Antônio Simas, pesquisador especialista em religiões afro-brasileiras, explica.

“Na mitologia dos orixás, Oxóssi foi um caçador, e o mito mais famoso dele é que o reino estava ameaçado por conta de um pássaro, que foi enviado pelas feiticeiras para levar fome e prejudicar a plantação. Mas Oxóssi, com uma única flecha, acertou o peito daquele pássaro, que acabou morrendo”, explica Simas.

Veja a comemoração:

Uma bola, uma flecha

“Portanto, Oxóssi é aquele que, com uma flechada só, salvou o reino da fome”, completa o professor, que ressalta uma coincidência entre o mito e o feito de Paulinho no fim de Brasil 4 x 2 Alemanha, quando o adversário ameaçava empatar o jogo.

“Aquela foi a única bola do Paulinho no jogo. E Oxóssi é o orixá que tinha uma flecha só. Aquele gol foi para ele a flechada no peito do pássaro”, compara Simas.

O jogador nunca escondeu sua religião – que prefere chamar de filosofia de vida. E frequentemente faz postagens nas redes sociais saudando os orixás, incluindo Iemanjá e Exu.

Nos tempos de Pai Santana  

Para Simas, os gestos de Paulinho são importantes também por uma questão de representatividade.

“A comemoração dele é muito representativa. A gente não pode desvinculá-la do contexto de um avanço furioso de designações neopentecostais contra as religiosidades afro-brasileiras, que vem desde meados da década de 1980 e vem se aprofundando, sobretudo no futebol. A gente sabe que se criou um ambiente em que o jogador que é vinculado à cultura de terreiro se sente até constrangido diante desse avanço de movimentos como Atletas de Cristo”, afirma Simas.

O escritor, autor de vários livros sobre o tema, como “Fogo no Mato”, lembra que as religiões afro-brasileiras já estiveram mais presentes no ambiente do futebol.

“Nós tivemos tempos de Pai Santana [massagista do Vasco que realizava trabalhos espirituais para ajudar o time] e Lourinho, pai de santo do Bahia, mas com o tempo isso foi se perdendo”, conclui.

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